Catalunha quer menos volume e mais valor no turismo

A Catalunha quer mudar a forma de pensar o turismo. Mais do que aumentar o número de visitantes, o objetivo agora é atrair viajantes que permaneçam mais tempo, conheçam melhor o território e tenham interesse real por sua cultura, gastronomia e modo de vida. Essa é a estratégia apresentada por Arantxa Calvera, diretora global da Agência Catalã de Turismo (ACT), durante uma missão realizada no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Batizada de “(+) Catalunya, millor turisme”, a nova orientação parte de uma ideia simples: trocar volume por valor. Para Calvera, depois de anos de crescimento das chegadas internacionais, a Catalunha precisa escolher com mais precisão os mercados e perfis que deseja atrair.

O foco está no que ela define como viajantes conscientes, pessoas interessadas não apenas em visitar os principais cartões-postais, mas em compreender o destino, sua cultura, gastronomia, paisagens e identidade.

É nesse cenário que o Brasil aparece como mercado estratégico. Em 2025, 211,3 mil brasileiros visitaram a Catalunha, movimentando cerca de 500 milhões de euros. O gasto representou crescimento de 43% em relação ao ano anterior.

Para Calvera, porém, o interesse pelo Brasil não se explica apenas pelos números. O perfil do viajante brasileiro tem afinidade com dois pilares que a Catalunha deseja fortalecer: cultura e gastronomia. Há ainda uma vantagem importante de calendário. Como parte das viagens acontece fora do verão europeu, o mercado brasileiro contribui para reduzir a concentração turística nos meses de alta temporada.

A ideia é ter atividade turística durante todo o ano, mantendo hotéis, restaurantes, comércio e serviços em funcionamento e garantindo maior estabilidade aos empregos ligados ao setor.

Essa distribuição também precisa acontecer no território. Barcelona permanece como principal porta de entrada, mas a ACT quer ampliar o conhecimento sobre outras regiões, como Costa Brava, Costa Daurada, Pirineus e o interior da Catalunha, associando essas áreas a experiências de natureza, cultura, enogastronomia, neve e atividades ao ar livre.

Outro ponto recorrente na fala de Calvera é o papel do morador. A nova estratégia coloca a população local no centro da política turística. Para ela, não existe turismo sustentável se a atividade não trouxer benefícios perceptíveis para quem vive no destino.

Um dos exemplos citados é a taxa turística, cuja arrecadação pode ser revertida para iniciativas de interesse público. Na Catalunha, esses recursos podem apoiar desde programação cultural até melhorias em escolas públicas, inclusive adaptações relacionadas às temperaturas mais altas provocadas pelas mudanças climáticas.

O turismo, segundo Calvera, representa cerca de 13% da economia catalã e está associado a aproximadamente 540 mil postos de trabalho. Mas ela defende que seu impacto deve ser entendido de maneira mais ampla.

Agricultura, pesca, comércio, gastronomia, museus, patrimônio histórico, festivais e parques naturais também se beneficiam do fluxo de visitantes. A questão, portanto, não é apenas quanto o turista gasta diretamente, mas como esse dinheiro circula pelo território e ajuda a sustentar outras atividades.

Cultura como porta de entrada

Em 2026, a cultura ocupa posição central na promoção internacional da Catalunha. Calvera cita nomes como Antoni Gaudí, Joan Miró e Salvador Dalí para mostrar como a produção artística catalã atravessou fronteiras e se tornou parte do imaginário internacional.

A missão ao Brasil coincidiu com a exposição dedicada a Joan Miró, em São Paulo, com mais de uma centena de obras do artista. Cerca de 50 formadores de opinião do turismo participaram de um encontro que reuniu workshop com representantes catalães e visita guiada à mostra.

No total, as ações no Rio de Janeiro e em São Paulo alcançaram aproximadamente 240 profissionais brasileiros, entre agentes, operadores especializados em turismo de alto valor, executivos, criadores de conteúdo e imprensa.

A delegação reuniu sete empresas e instituições catalãs: Hotel El Palace Barcelona, Ohla Hotels, Monument Hotel, Across Spain, Warq Tourism, Fundação Joan Miró e La Roca Village.

A programação contou ainda com a participação de Jordi, diretor da ACT para a América do Sul, que também apresentou ao mercado brasileiro a estratégia e as possibilidades do destino.

A Catalunha pelo paladar

A gastronomia, um dos temas mais presentes na entrevista de Calvera, também ganhou protagonismo na programação brasileira.

O chef catalão Oscar Bosch, radicado no Brasil, realizou uma apresentação dedicada à cozinha de sua terra. Bosch pertence a uma família de longa tradição gastronômica de Cambrils, ligada ao Can Bosch, restaurante que mantém uma estrela Michelin desde 1984.

Sua proposta, no entanto, está longe de reproduzir a tradição de maneira literal. Bosch apresenta uma gastronomia catalã única, supercontemporânea e de execução primorosa, preservando sabores e referências de origem, mas trabalhando-os com linguagem atual, sofisticação e precisão técnica.

A apresentação sintetizou, à mesa, boa parte do discurso defendido por Arantxa Calvera. Para a ACT, gastronomia não é apenas um complemento da viagem, mas uma forma de compreender o território, sua história e sua cultura.

Essa lógica também ajuda a explicar por que a Catalunha quer ser percebida como um destino para o ano inteiro. Calvera cita os Pirineus no inverno, as tradições gastronômicas como as calçotadas, as florações, festas populares, museus, festivais e experiências na costa como motivos para viajar em diferentes épocas.

A mudança proposta pela Catalunha não significa abandonar os grandes números. Significa deixar de tratá-los como único indicador de sucesso.

O visitante que interessa agora é aquele que conhece mais, circula mais pelo território, consome cultura, valoriza a gastronomia e contribui para uma atividade turística que também faça sentido para quem mora ali.

 

By Mary de Aquino

C.Turismo

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